Após estreia criticada, porta-voz de Trump admite não ter licença de advogada e enfrenta duas denúncias

Menos de uma semana depois de assumir o cargo a convite de Donald Trump , a nova porta-voz da Casa Branca, Katie Zacharia , admitiu em entrevistas à Fox News que não tem licença para exercer a advocacia nos Estados Unidos, após ser alvo de duas denúncias por se apresentar publicamente como advogada.
Formada em Direito pela Universidade Pepperdine, Zacharia confirmou na quinta-feira (15) ao comentarista conservador Jack Posobiec e ao apresentador Sean Hannity que foi reprovada no exame da Ordem dos Advogados da Califórnia, em 2011, e nunca tentou novamente.
Apesar disso, apresentou-se diversas vezes como advogada na televisão, nas redes sociais e em sua trajetória profissional. O próprio Trump usou o título ao anunciar sua nomeação.
As denúncias, apresentadas por duas organizações americanas, pedem que as autoridades da Califórnia investiguem se Zacharia violou a legislação estadual.
Uma delas também questiona se a porta-voz chegou a exercer atividades jurídicas sem autorização quando trabalhava para uma organização ligada a um aliado de Trump.
Estreia atrapalhada
A admissão veio depois de uma estreia atrapalhada e alvo de críticas da imprensa e até de integrantes do governo que falaram sob anonimato.
Em sua primeira coletiva, na terça-feira (13), Zacharia demonstrou nervosismo, recorreu frequentemente a anotações e encerrou a sessão após apenas 14 minutos, tendo respondido a perguntas de três veículos, todos de perfil conservador.
No meio da confusão, ela pode não ter o mesmo protagonismo de sua antecessora no cargo, Karoline Leavitt, que fazia coletivas para a imprensa quase que diariamente e falava com desenvoltura em nome de Donald Trump, com total conhecimento dos assuntos do governo.
Em entrevista ao jornal britânico The Guardian, a nova porta-voz afirmou que ainda não sabe quanto tempo dedicará ao contato com os jornalistas – o que é em essência o papel do ocupante do cargo – e que seguirá as orientações de Trump, fazendo aparições “conforme a necessidade”.
Porta-voz admite reprovação no exame da Ordem
Katie Zacharia relatou que o exame para obter a licença profissional foi realizado em 2011, quando se preparava para casar e mudar-se para a China. A porta-voz afirmou que não deu muita importância à reprovação porque não precisaria da licença americana para trabalhar naquele país.
Mesmo reconhecendo que não possui licença para advogar, Zacharia contestou as acusações de que teria se apresentado indevidamente como advogada.
Disse que há muita desinformação sobre o assunto e que sua formação em Direito lhe permitiria utilizar o termo lawyer , embora não pudesse se identificar como attorney at law , expressão associada à habilitação profissional.
A explicação é contestada por especialistas, que apontam que a legislação da Califórnia proíbe não apenas o exercício da advocacia sem autorização, mas também que uma pessoa se apresente como habilitada a exercer a profissão.
À CBS News, Nora Freeman Engstrom, professora de Direito da Universidade Stanford, explicou que não é necessário atuar em tribunais ou representar clientes para violar a lei. Segundo ela, a forma como o profissional se apresenta ao público também pode configurar infração.
Duas denúncias pedem investigação sobre credenciais de Katie Zacharia
A primeira denúncia foi apresentada em 14 de outubro pela Campaign for Accountability (CfA), organização americana que investiga possíveis irregularidades e violações éticas. O pedido foi encaminhado à Ordem dos Advogados da Califórnia.
A CfA reuniu exemplos de ocasiões em que Zacharia se apresentou como advogada.
Segundo a organização, ela apareceu com esse título em pelo menos 18 participações na Fox News desde março de 2025. Também afirmou ser advogada em 5 de outubro de 2026, durante o programa The Greg Kelly Show .
A entidade questionou ainda referências à atuação de Zacharia em cargos jurídicos, incluindo trabalhos de consultoria para o Banco Mundial e a Corporação Financeira Internacional.
A segunda denúncia foi apresentada pela Democracy Defenders Fund, organização que reúne especialistas em ética governamental, incluindo profissionais que trabalharam em administrações republicanas e democratas.
O grupo pediu à Ordem dos Advogados e à Procuradoria-Geral da Califórnia que investiguem se a porta-voz exerceu ilegalmente a advocacia entre janeiro de 2024 e março de 2025, período em que ocupou o cargo de general counsel , equivalente a conselheira jurídica, da Fix California.
A organização foi fundada por Richard Grenell, aliado de Trump. À Reuters, Grenell afirmou que Zacharia trabalhava como assessora sênior e desempenhava diferentes funções, entre elas coordenar os advogados externos contratados pela entidade.
A explicação não esclarece completamente quais atividades jurídicas ela exercia. É justamente essa questão que os denunciantes querem ver investigada.
O que diz a lei da Califórnia
Nos Estados Unidos , a conclusão do curso de Direito não autoriza automaticamente o exercício da advocacia. É necessário obter a licença profissional no estado onde se pretende atuar.
Na Califórnia , a legislação proíbe tanto o exercício não autorizado da profissão quanto a apresentação pública de uma pessoa como habilitada a exercer a advocacia quando ela não possui essa autorização.
A violação pode resultar em multa de até US$ 1 mil e pena de até um ano de prisão, dependendo das circunstâncias.
Até o momento, as denúncias constituem pedidos de investigação. Não há confirmação pública de que a Ordem dos Advogados da Califórnia tenha aberto um procedimento contra Zacharia ou de que ela tenha sido formalmente acusada de algum crime.
Chefe da Casa Branca chama denunciantes de “lunáticos”
A Casa Branca não se pronunciou oficialmente sobre o “erro” nas informações divulgadas sobre a qualificação da sua nova porta-voz.
Mas Steven Cheung, chefe de comunicação da presidência, compartilhou uma reportagem do Wall Street Journal sobre o caso, chamando os membros da CfA de “lunáticos”.
“Esse grupo que apresentou a ‘queixa’ é uma organização radical de esquerda dirigida por lunáticos imbecis que sofrem de um caso grave de Síndrome de Transtorno Obsessivo por Trump.”
Além disso, Cheung disse que “ninguém os leva a sério”, sugerindo que nada aconteceria após a detecção do erro.
A CfA foi criada em 2015 e já fez denúncias de grande vulto em casos de corrupção.
Uma delas foi contra o senador Bob Corker, que teria escondido informações sobre investimentos em fundos milionários controlados por doadores da sua campanha. Após o acionamento por parte do CfA, o FBI abriu uma investigação oficial sobre o caso.
Questionamentos sobre trabalho na China
A trajetória profissional da porta-voz também passou a ser examinada pela imprensa americana. Depois de se formar em Direito em 2011, Zacharia mudou-se para Pequim, onde trabalhou até 2013 no escritório Zhong Lun Law Firm.
À Reuters, ela afirmou que atuou com transações jurídicas internacionais e que possuía as credenciais necessárias para desempenhar suas funções.
A legislação chinesa, porém, não permite que estrangeiros obtenham licença para exercer a advocacia local. Profissionais estrangeiros podem trabalhar em determinadas atividades de consultoria e assessoria jurídica, mas não atuar como advogados habilitados na China.
Respostas confusas
As inconsistências nas credenciais de advogada de Katie Zacharia provocaram respostas evasivas e confusas.
Q: You said Zacharia is an attorney. Where did she pass the bar exam? What state?
ZACHARIA: When I moved to China https://t.co/LUAk4Vhqgp
— Aaron Rupar (@atrupar) October 13, 2026
Ao lado de Donald Trump, jornalistas questionaram-a novamente sobre em qual estado teria feito o exame e Katie respondeu: “Quando eu me mudei para a China”. Depois, em entrevista ao jornal The New York Times, ela esclareceu que a resposta foi uma falha de comunicação.
“Presumi que a pergunta fosse: ‘Onde você estava depois da faculdade de direito?’ Era tudo o que eu conseguia ouvir com o barulho do helicóptero Marine One.”
Ainda em entrevista ao jornal The New York Times, Katie explicou que o título de advogada foi uma sugestão do reitor da Universidade Pepperdine, onde ela estudou.
“Ela explicou que quando começou a aparecer na TV a cabo, consultou o reitor da Pepperdine sobre como deveria se identificar. Ela disse que recebeu orientação para não usar o termo ‘jurista’, mas que ‘advogada’ seria ok”, diz a reportagem.
Estreia “engessada”
A primeira coletiva de imprensa comandada por Zacharia durou apenas 14 minutos, oito deles com um pronunciamento dela. Muitos analistas encararam as suas falas engessadas, risos constrangidos e poucas respostas como um sinal de insegurança.
Quando encerrou o pronunciamento, ela chamou apenas três veículos para fazer perguntas. O primeiro deles foi o site conservador Breitbart, depois, a Fox News e, por fim, o jornal britânico Daily Mail.
A nova porta-voz não soube responder a uma das perguntas e cometeu um deslize verbal ao trocar as palavras “presidente” e “marido” quando falou sobre a conciliação da vida familiar com as responsabilidades do cargo.
Sua performance foi inevitavelmente comparada a de Karoline Leavitt, 29, conhecida por ter uma postura confiante e ser, muitas vezes, combativa contra jornalistas. Leavitt desistiu do cargo para passar mais tempo com a família. Ela anunciou a mudança em agosto.
Quem é Katie Zacharia
Foto: Instagram A nova porta-voz da Casa Branca tem um histórico dentro da política americana. No começo da carreira, passou pela Casa Branca como estagiária durante o governo de George W. Bush.
No governo Trump ela trabalhou brevemente como porta-voz do Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos. O órgão é responsável pelas políticas imigratórias polêmicas do governo do republicano.
Em junho deste ano entrou para a Trump Media, empresa particular do presidente, holding da rede Truth Social.
Fora da política, Zacharia também atuou em organizações conservadoras e participou de campanhas republicanas.
Pouco após a sua nomeação, o histórico de Zacharia também se tornou tema de conversa nas redes sociais devido a postagens controversas com fake news e teorias conspiratórias.
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Verið er að sækja alla fréttina. Tiltækur texti birtist á meðan.