Entrevista a António Manuel Alves: Rosa do Alentejo a pedra que corre mundo
António Manuel Alves, da EFA — Ezequiel Francisco Alves, Lda., aponta uma relação mais favorável com as entidades que regulam a atividade. Em entrevista ao Alentrium.pt , fala dos mercados, do aproveitamento das escombreiras e do futuro do mármore rosa.
Depois de quatro décadas a explorar uma pedreira, António Manuel Alves mantém a confiança no futuro dos mármores do Alentejo. O empresário descreve uma atividade que procura recuperar mercados e considera que a intervenção das entidades públicas está hoje mais próxima das necessidades das empresas.
“Já estão a ajudar o setor e a regulamentar o setor de uma maneira positiva”, afirma, referindo-se à evolução que identifica nos últimos dois anos.
Na entrevista ao Alentrium.pt , acompanhada por imagens da transformação do mármore, o responsável da EFA percorre os desafios de uma indústria ligada à economia e à identidade da região.
Da paragem à recuperação dos mercados
António Manuel Alves conta que a exploração da sua pedreira foi interrompida na sequência do colapso da estrada em Borba. Entretanto, retomou a atividade e trabalha para recuperar o ritmo e os clientes.
“Atualmente estamos a explorar a pedreira a 100% e estamos a retomar o ritmo e a retomar os mercados que tínhamos”, explica.
Portugal, Espanha e Itália integram os destinos tradicionais que identifica. O empresário refere também a procura no Médio Oriente e assinala o crescimento do mercado chinês, embora reconheça a instabilidade internacional.
O mármore rosa ocupa um lugar central nesta conversa. Segundo o entrevistado, a valorização comercial depende também da aparência da pedra, dos seus veios e das preferências dos compradores.
Quanto às reservas, acredita que a área onde trabalha poderá continuar a ser explorada durante muitas décadas. A perspetiva que apresenta aplica-se à sua exploração e pressupõe a manutenção do ritmo atual.
Fiscalização: de uma intervenção difícil a uma relação mais próxima
O empresário faz uma leitura crítica da intervenção inicial das entidades após o colapso da estrada em Borba. Na sua avaliação, as exigências e a incerteza contribuíram para paragens e dificuldades nas empresas.
Considera, porém, que essa relação evoluiu. Destaca um maior conhecimento da atividade por parte dos serviços e uma aproximação entre as exigências administrativas e a capacidade de resposta dos operadores.
“O setor agradece ser regulamentado porque também precisa de ser apoiado e saber o que é que lhe é permitido ou o que não lhe é permitido”, sublinha.
A concorrência de materiais cerâmicos e de imitações da pedra natural é outra das dificuldades que aponta. Na sua perspetiva, o setor precisa de melhorar a organização e a promoção dos seus produtos.
Escombreiras: aproveitar o material que fica
O destino das escombreiras é outro dos temas da entrevista. António Manuel Alves defende que o material acumulado deve ser encarado como um recurso com possibilidades de aproveitamento.
Entre os exemplos que apresenta estão a utilização em obras rodoviárias e ferroviárias e a produção de britas. Considera que uma maior divulgação dessas aplicações poderia ajudar a aumentar a procura.
O empresário reconhece que a exploração continua a gerar material para as escombreiras. Ainda assim, defende uma colaboração entre empresas e entidades públicas para encontrar mais utilizações e reduzir a acumulação.
Tecnologia, trabalhadores e futuro
A modernização dos equipamentos é, para António Manuel Alves, uma das mudanças mais relevantes na atividade. O empresário descreve operações mais mecanizadas, com menor esforço físico, e considera que houve melhorias nas condições de segurança.
Refere também uma evolução dos salários. Na entrevista, aponta valores de remuneração base entre 1.400 e 1.500 euros para trabalhadores de pedreira, segundo a sua experiência no setor.
Sobre a saída de profissionais através da reforma antecipada, considera que a atividade já recuperou, embora mantenha uma avaliação crítica dos efeitos daquela medida.
Para o futuro, defende a adaptação às novas tecnologias, a procura de mercados e a continuidade do trabalho com as autoridades. É nessa combinação que deposita a confiança numa atividade que conhece há quarenta anos.
Entre a memória de quem abriu caminho e as mãos que hoje dão forma à pedra, o mármore continua a contar uma história do Alentejo.
Reportagem: Alentrium.pt | Entrevista: Augusta Serrano | Edição: Carlos Caldeira
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