Riqueza não se produz em doze prestações sem juros
Existe uma crença bastante difundida no Brasil segundo a qual o crescimento econômico começa no consumo. Basta colocar mais dinheiro no bolso das pessoas, facilitar o crédito, estimular as compras e esperar que a prosperidade apareça. A teoria é agradável, especialmente para quem vende. O problema é que, em algum momento, alguém precisa produzir aquilo que está sendo comprado e, preferencialmente, gerar riqueza suficiente para pagar a conta.
Os números começam a mostrar os limites dessa estratégia. As projeções para o crescimento do consumo das famílias em 2026 e 2027 já apontam taxas inferiores a 1%, depois de anos em que essa variável sustentou boa parte da expansão econômica. Enquanto isso, o comprometimento da renda familiar com dívidas chegou a 28,7% em julho, segundo dados do Banco Central. Em setembro, de acordo com a Confederação Nacional do Comércio, quase 30% das famílias estavam inadimplentes. Não parece exatamente o retrato de uma sociedade que esteja enriquecendo.
O brasileiro tornou-se um consumidor extraordinariamente sofisticado. Aprendeu a parcelar praticamente tudo, antecipar desejos, comparar preços e transformar o cartão de crédito numa extensão do salário. O comércio, por sua vez, aperfeiçoou a arte de vender amanhã aquilo que o consumidor ainda não conseguiu pagar ontem. Uma engenharia comercial admirável, embora economicamente pouco sustentável quando a renda não acompanha o entusiasmo.
Convém esclarecer que o consumo é indispensável ao crescimento. Sem demanda, não existem vendas, investimentos ou empregos. Mas confundir consumo com criação de riqueza é um erro conceitual importante. Uma sociedade não se torna mais próspera simplesmente porque seus habitantes compram mais. Enriquece quando consegue produzir mais valor com os recursos disponíveis, incorporando tecnologia, conhecimento, eficiência e produtividade.
É justamente nesse ponto que o Brasil apresenta suas dificuldades históricas. O país possui recursos naturais extraordinários, um mercado consumidor gigantesco, empresários capazes e setores de excelência mundial. Entretanto, continua convivendo com produtividade insuficiente, infraestrutura cara, complexidade tributária e um ambiente regulatório que frequentemente transforma iniciativas empresariais em exercícios de resistência psicológica.
Abrir um negócio no Brasil exige coragem. Fazer esse negócio crescer exige talento. Mantê-lo competitivo durante décadas, em determinados setores, aproxima-se perigosamente de uma modalidade olímpica.
Enquanto economias mais dinâmicas investem em automação, inovação, qualificação profissional e infraestrutura, o debate brasileiro insiste frequentemente em procurar maneiras de estimular a demanda. É mais fácil discutir como aumentar o consumo do que enfrentar as condições necessárias para elevar a produtividade. O primeiro produz resultados relativamente rápidos. O segundo exige planejamento, investimento e continuidade. Três qualidades que nem sempre frequentam a mesma sala.
Existe ainda uma confusão persistente sobre o papel do empresário. Ele costuma aparecer no debate público como beneficiário suspeito do sistema econômico, quando deveria ser reconhecido como um de seus principais agentes de transformação. Não porque os empresários sejam necessariamente virtuosos, mas porque é através do investimento produtivo, da inovação e da organização empresarial que surgem empregos, renda e oportunidades.
O Estado tem responsabilidades fundamentais: educação, segurança jurídica, infraestrutura, concorrência e estabilidade econômica. Mas não pode substituir indefinidamente a capacidade de geração de riqueza da sociedade por mecanismos de estímulo ao consumo financiados por crédito e endividamento.
O Brasil precisa mudar a pergunta central de sua estratégia econômica. Em vez de discutir exclusivamente como fazer o brasileiro consumir mais, deveria perguntar como permitir que produza melhor, ganhe mais e dependa menos de crédito para viver. Porque existe uma diferença fundamental entre uma sociedade que consegue comprar e uma sociedade que consegue prosperar. A primeira precisa continuamente de estímulos. A segunda cria suas próprias oportunidades. E a riqueza, infelizmente para os entusiastas do parcelamento, não pode ser produzida em doze prestações sem juros.
*Coluna escrita por Fabio Ongaro , economista, empresário italiano no Brasil e CEO da Energy Group
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