Paulo Rocha: o constrangimento público e o silêncio do PT
Por Marcelo Bastos*
As novas imagens envolvendo Paulo Rocha tornam ainda mais delicada uma situação que já era politicamente constrangedora. As cenas em que ele aparece aparentemente embriagado, protagonizando uma confusão durante um casamento e tentando pegar o buquê da noiva, ampliam a repercussão de um episódio que ultrapassou os limites da vida privada e passou a provocar questionamentos públicos.
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Não se trata de transformar um momento de possível descontrole em sentença definitiva sobre uma trajetória política, muito menos de fazer do constrangimento alheio um espetáculo. Trata-se de compreender que figuras públicas, especialmente aquelas com longa história de militância e responsabilidades políticas, também são cobradas pela maneira como se comportam. E, quando as imagens circulam amplamente, o silêncio deixa de ser uma opção confortável.
O problema já não se resume às imagens. Existe uma cobrança da sociedade para que alguma coisa seja feita, para que haja esclarecimentos e, se houver elementos que justifiquem providências, que os procedimentos cabíveis sejam adotados. É importante, porém, separar indignação pública de responsabilidade jurídica: não se deve presumir a existência de denúncia formal ou de investigação sem confirmação.
Ainda assim, a ausência de informações claras alimenta especulações e prolonga o desgaste. Paulo Rocha tem direito à sua dignidade, à defesa e à possibilidade de explicar o que aconteceu. A sociedade, por sua vez, tem o direito de cobrar responsabilidade de seus representantes e dirigentes. Uma coisa não elimina a outra.
Mas há uma dimensão política que talvez seja ainda mais reveladora: a aparente solidão de Paulo Rocha dentro do próprio Partido dos Trabalhadores. Até onde se percebe publicamente, não houve uma manifestação expressiva de solidariedade política, tampouco uma crítica construtiva capaz de apontar limites, reconhecer erros e abrir espaço para uma saída digna. O que parece prevalecer é o distanciamento.
E esse silêncio chama a atenção porque o PT não é apenas uma legenda eleitoral; nasceu de movimentos sociais, sindicatos, organizações populares e relações de solidariedade construídas ao longo de décadas. Quando um de seus quadros históricos atravessa uma crise, seria razoável esperar uma posição que não confundisse solidariedade com absolvição, nem responsabilidade com abandono.
O pedido de desculpas, pelo menos na forma como foi percebido, parece ter ficado aquém do momento. Foi uma manifestação seca, protocolar, sem a dimensão humana que uma crise dessa natureza exige. Um vídeo talvez tivesse sido mais adequado: não como encenação para recuperar popularidade, mas como oportunidade de falar diretamente às pessoas, demonstrar consciência sobre o ocorrido, reconhecer o constrangimento causado e explicar, com sinceridade, o que fosse possível explicar. A política também é feita de gestos, palavras e capacidade de reconhecer os próprios erros. Um pedido de desculpas burocrático pode até cumprir uma formalidade, mas dificilmente reconstrói a confiança quando não transmite a impressão de que houve reflexão verdadeira.
O card com o pedido de desculpas foi enviado pela assessoria de imprensa do ex-senador muitas horas depois do ocorrido.
Conheço Paulo Rocha desde 1988, quando ele presidia a CUT. Tenho, portanto, uma memória que antecede em muito o episódio atual e que não se limita às imagens que circulam agora. Lembro também de suas dificuldades em lidar com a contrariedade e de situações em que seu comportamento me pareceu autoritário. Essa memória pessoal não me autoriza a reduzir toda a sua trajetória a um único traço, assim como sua história política não deve servir de escudo contra críticas.
É justamente por conhecer parte desse percurso que considero insuficiente tratar o episódio apenas como uma sucessão de imagens constrangedoras. Há uma pessoa, uma história política e uma crise que exigem mais do que condenação apressada ou silêncio conveniente.
No fim, a pergunta que fica é sobre o próprio PT: que tipo de partido é aquele que não consegue transformar uma crise em oportunidade de diálogo, responsabilização e reconstrução política?
Se Paulo Rocha errou, que se diga com clareza onde errou. Se precisa responder por seus atos, que responda. Se necessita de ajuda, acolhimento ou uma conversa franca com seus companheiros, que isso também seja considerado.
Solidariedade não significa passar pano, assim como crítica não precisa ser sinônimo de humilhação.
O abandono silencioso pode ser tão revelador quanto as imagens que provocaram a crise.
Para quem dedicou tantos anos à vida sindical e partidária, a ausência de uma palavra verdadeiramente humana talvez seja uma das faces mais dolorosas desse episódio. E, para o PT, fica uma questão incômoda: quando um companheiro cai, o partido oferece uma mão para que ele se levante ou apenas se afasta para não aparecer na fotografia?
* Marcelo Bastos é militante do PT e fundador da editora Comunistando
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