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A vergonha própria e a vergonha alheia

Escrito no Brasil na primeira metade da década de 1950, o Caderno Proibido de António Botto nunca foi propriamente um livro. É literalmente uma pasta do espólio do poeta na Biblioteca Nacional (E12/13), com algumas dezenas de poemas. A verificar-se, o adjetivo viria do próprio autor, o que não é claro. São poemas homoeróticos de uma concretude sem paralelos nas suas canções. Os especialistas conheciam já parte destes textos. Anna Klobucka publicou e comentou alguns deles em O Mundo Gay de António Botto (2018).

António Fernando Cascais estudou a pasta no ensaio «António Botto, no centro da sua margem», sublinhando a linha de demarcação que o próprio Botto traçava entre a obra publicada e estes inéditos. A novidade da edição agora publicada pela Guerra e Paz, em janeiro de 2026, é reunir pela primeira vez o conteúdo integral da pasta. A tentativa de obras completas promovida por Eduardo Pitta junto à Quasi tinha-o deixado de fora, alegando que o autor não o quisera publicar.

Na imprensa, Klobucka lembrou que no espólio não existe nenhum “caderno” nem, muito menos, manuscrito de livro em preparação. Há apenas materiais em estados de composição desiguais, o que torna difícil uma edição coerente.

O organizador, o investigador independente Victor Correia, não é certamente estranho ao tema. Publicou uma História da Homossexualidade em Portugal (2025), vários livros sobre a homossexualidade em Fernando Pessoa e, com Vladimiro Nunes, uma antologia do homoerotismo na poesia portuguesa, livro esse que já acusava alguns problemas de edição.

O organizador sabe ser o Caderno Proibido um projeto inacabado, mas o problema é que não revela a preparação adequada para fazer um trabalho destes. Ninguém contesta que estes poemas não mereçam ser lidos. O problema está, assim, nas muitas intervenções abusivas da parte do editor. Correia impõe a maiúscula inicial em todos os versos, contra a vontade visível de Botto. Também escolhe variantes fazendo uso de critérios contraditórios entre si e flutuantes. Na terceira versão do poema pela pena de morte, lemos o verso «Era bem avantajado» (p. 30).

O organizador informa que foi riscado e substituído pela versão muito eufemística «Era deveras em perfeição», mas prefere-lhe a primeira. Contraria assim as regras mais elementares, não só da Filologia mas do próprio senso comum editorial, que tomam por lição a última vontade do autor. O organizador chama ainda a atenção para o facto de certos poemas se chamarem “Canções”, ou de serem numerados ao jeito das canções bottianas. Igualmente grave é ter desrespeitado ou mudado alguns destes títulos ou enumerações, segundo confessa, para não gerar confusões no leitor.

Mas a verdade é que a confusão é mais dele do que nossa. Parece não ter entendido haver aqui uma hipótese bastante interessante a desenhar-se: não estaria Botto a numerar os poemas como canções por pensar introduzi-los nas suas Canções canónicas? Nunca o chegou a fazer, bem entendido e por razões óbvias.

Caderno Proibido confirma, se não fosse já claro, a poesia de Botto como lugar privilegiado para a colocação de várias possibilidades de subjetividade gay masculina, aqui dando-se livre vazão ao registo erótico mais evidente e desbragado. Os amantes, mais do que iguais, são quase duplos, na tradição da fala de Aristófanes no Banquete de Platão.

Cabem nesta poesia mesmo as possibilidades sócio-historicamente mais improváveis para o amor gay, como as do sexo tranquilo, feliz, amorosamente correspondido (p. 39). Pode pensar-se, assim, que de certa forma não é a descrição de atos sexuais que é obscena, mas justamente a possibilidade do sexo tranquilo, sem a proximidade do fantasma do casamento e da sociedade repressiva que o impõe. É isso que é verdadeiramente obsceno aqui. E que por isso só se pode passar fora de cena.

Outra tensão atravessa o livro: a que opõe a dicção erudita à popular, ambas dominadas por Botto. A popular vem da sua origem e do discurso da intimidade («Larga-me. Não. O quê? repete lá; não ouvi», p. 51), e chega ao baixo calão, que por via deste Botto oculto entra no Modernismo tardio português: «Assim chamam ao traseiro / na gíria do baixo calão» (p. 65). Veja-se ainda “atesoadíssimo”, palavra bem conhecida que o organizador diz não existir. No polo oposto, o pedantismo burguês é por vezes insuportável: «E só a França o criou / Como inventa tanta coisa / E só ela as inventou» (p. 34). Os dois registos chocam quando Botto embalsama o erotismo numa estetização aristocratizante pouco convincente, como na quarta versão de “Palácio dos quartos alugados”. O organizador faz bem em reproduzir todas as versões sem preferir nenhuma. Os muitos ecos e repetições do livro mostram, aliás, que quase nunca houve opção autoral clara.

É, contudo, um livro muito revelador, apesar de todos os problemas que o afetam. Dá a ver um Botto que estava oculto e que leva ao limite o registo erótico e o baixo calão, percebendo nós que ele gostaria que tal registo afetasse as suas Canções dadas à publicidade. Por outro lado, é um livro que nos permite recolocar, mais do que o erótico e o homoerótico, as questões do obsceno, e pensar o que é realmente obsceno neste livro. Fica, contudo, por fazer a edição que dê conta, com o devido rigor, deste laboratório bottiano muito inacabado, das suas versões, ecos e hesitações.

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