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A mania de grandeza de Josefa Sacko – Lucas Pedro

O Presidente da República, João Lourenço, pediu, na segunda-feira, em Roma, o apoio da comunidade internacional à eleição da sua cunhada, Josefa Leonel Correia Sacko, para o cargo de directora-geral da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO).

O pedido do Presidente junta-se às várias campanhas que os órgãos ministeriais têm promovido nas redes sociais. Portanto, só faltam agora o MPLA, a OMA, a JMPLA e companhias organizarem marchas de apoio à eleição de Josefa Sacko para a liderança da FAO.

Os dirigentes angolanos têm a mania da grandeza e de aparecer. É normal que uma pessoa tenha ambições de alcançar determinada posição numa sociedade ou organização, mas, quando se trata de alguém proveniente de Angola, até os santos desconfiam.

A questão central é saber até que ponto Angola está preparada para apresentar ao mundo uma candidatura desta natureza, tendo em conta os problemas estruturais que continuam a afectar a agricultura nacional.

Antes de procurar reconhecimento internacional, talvez fosse importante demonstrar, dentro de portas, resultados concretos no sector que se pretende representar.

Não está em causa a legitimidade de qualquer cidadão angolano para concorrer a um cargo internacional, nem a competência individual de Josefa Sacko. O que se questiona é a prioridade atribuída a estas ambições num país onde a agricultura continua a enfrentar dificuldades profundas e persistentes.

Angola dispõe de terras aráveis, água e condições naturais favoráveis à produção agrícola. Ainda assim, milhares de camponeses continuam a depender da chuva, enfrentam períodos de seca e pragas, além de dificuldades no acesso a sementes, fertilizantes e outros insumos essenciais.

A falta de estradas em condições, de meios de transporte, de energia eléctrica e de unidades de transformação e conservação dos produtos agrava as perdas e limita o escoamento da produção.

A estes problemas juntam-se as dificuldades de acesso ao crédito. Para muitos produtores, os mecanismos de financiamento disponibilizados por instituições como o Fundo de Apoio ao Desenvolvimento Agrário (FADA) e o Banco de Desenvolvimento de Angola (BDA) continuam longe de responder às necessidades reais do campo.

A burocracia, as exigências administrativas e a morosidade dos processos acabam, muitas vezes, por afastar precisamente aqueles que mais precisam de apoio.

Perante este cenário, seria razoável esperar que a prioridade de quem pretende assumir uma função de liderança internacional ligada à alimentação e à agricultura fosse apresentar resultados e soluções concretas para os problemas dos produtores angolanos.

Afinal, não se pode falar de segurança alimentar e desenvolvimento agrícola sem olhar para as dificuldades de quem trabalha diariamente a terra.

A «madame» Josefa Sacko está a ser apresentada como alguém com formação e melhor preparação para ocupar o cargo. Até aqui, tudo bem. Mas, infelizmente, com toda esta mania de grandeza, nunca a vi nem a ouvi falar publicamente sobre como Angola deve melhorar o seu sector agrícola, que deixa muito a desejar.

Estou lembrado de que, quando o seu «cunhado», João Lourenço, assumiu o poder, em 2017, prometeu, com todos os dentes, que o seu Executivo faria grandes investimentos na agricultura. Mas, até hoje, infelizmente, poucos sinais de melhoria se fazem sentir nesta área tão importante.

Basta verificarmos os Orçamentos Gerais do Estado para constatarmos in loco o valor irrisório que o sector agrícola recebe anualmente. Sinceramente, o montante nem serve para coisa nenhuma. Isto porque falta vontade política a quem governa para apostar forte e feio neste sector.

Todos os anos, é a mesma coisa. Há inúmeras queixas e lamentações por parte dos agricultores angolanos, que gastam tempo e dinheiro a cultivar a terra, mas enfrentam mil e um problemas.

Ora falta chuva, ora surgem pragas, ora faltam insumos para trabalhar a terra, ora há dificuldades para escoar os produtos devido à falta de vias de acesso adequadas.

Os corajosos agricultores angolanos perdem centenas de toneladas dos produtos que cultivam, sobretudo devido à falta de transporte, de vias de acesso e de pequenas indústrias que, a nosso ver, poderiam servir de alavanca para o desenvolvimento do sector.

Vamos ser sinceros: sem estradas secundárias e meios de transporte, as centenas de toneladas de produtos produzidos pelos agricultores nunca chegarão às mesas dos angolanos.

Estou lembrado de que, no ano passado, tive uma conversa séria e longa com o meu amigo pessoal Isaías Kalunga, antigo presidente do Conselho Nacional da Juventude, sobre este assunto.

O Executivo angolano não pode sonhar com o desenvolvimento da agricultura sem, primeiro, criar mecanismos para escoar as toneladas de produtos que são produzidos nos campos. Só depois poderá pensar na criação de pequenas indústrias, que também ajudarão a transformar os excedentes agrícolas. Mas, para isso, é fundamental que a energia eléctrica chegue às zonas de produção.

Repito: o Executivo deve criar as condições necessárias para permitir que tanto o pequeno como o grande agricultor consigam escoar os seus produtos. Fora disso, este sonho torna-se uma utopia.

Quanto à nossa candidata, Josefa Sacko, deveria pensar melhor. Duvido mesmo que todos os países-membros da União Africana lhe dêem o seu voto.

Na minha opinião, falta-lhe um percurso suficientemente credível no sector para justificar a ambição de dirigir uma instituição desta dimensão. Pode até ser formada em Agronomia, mas, a meu ver, isso não basta para demonstrar que reúne a experiência necessária para liderar uma organização tão importante como a FAO.

E, para piorar, as imagens de propaganda em que aparece de luvas a segurar uma espiga de milho foram piores do que uma soneca. Nos campos agrícolas, os camponeses angolanos – quiçá os de África e não só – não trabalham daquela maneira. É uma pouca-vergonha! Até parece que aquelas imagens foram criadas por inteligência artificial.

Que fique claro: não estou aqui a conspirar contra ela, mas apenas a questionar a sua capacidade. Antes de tudo, deveria pensar em ajudar Angola a ultrapassar os problemas básicos que afectam o sector agrícola nacional. Só depois deveria preocupar-se em contribuir para a organização do sector a nível mundial.

Sem pôr em causa, à partida, as suas competências académicas, Josefa Sacko deveria vir a público e explicar-nos qual é o modelo que Angola deve adoptar para melhorar a sua agricultura. Que soluções propõe para os problemas dos agricultores?

Como pretende resolver as dificuldades de escoamento dos produtos, o acesso ao crédito, a falta de infra-estruturas e a escassez de energia eléctrica nas zonas de produção?

Fora disso, tudo não passa de mais uma demonstração da sua mania de grandeza. Querer chegar ao topo sem, na minha perspectiva, ter demonstrado publicamente que possui a bagagem e a capacidade necessárias para assumir tamanha responsabilidade.

*Jornalista

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