Back

O que um professor enxergou em você que ninguém mais viu?

Story illustration

Há algum tempo, levei meu filho para conhecer a escola onde estudei. Ao reencontrar um antigo professor, fui surpreendida ao vê-lo com os olhos cheios de lágrimas. Não esperava aquela emoção.

Foi curioso perceber que, enquanto carregamos nossos professores na memória, também podemos permanecer na deles. A visita trouxe de volta lembranças que eu nem sabia que estavam tão vivas.

Eu era uma aluna animada, para não dizer outra coisa, e uma leitora assídua. Consegui unir minhas frequentes idas à diretoria ao prazer da leitura: transformei a sala da diretora na minha biblioteca particular. Dois coelhos com uma cajadada só. Os livros eram quase uma desculpa.

Adorava ficar perto dela, ouvir suas histórias, conversar. Lembro do seu olhar e até do cheiro do cigarro, que, contra todas as minhas preferências, ganhou lugar na minha memória afetiva. E olha que detesto cheiro de cigarro! Lembro também do perfume da professora de português, das piadas de outro, do jeito calmo com que uma professora me chamava a atenção.

Claro que havia aqueles que pareciam não ter nascido para ensinar e acabavam descontando suas frustrações nos alunos. Mas isso, infelizmente, existe em qualquer profissão. O curioso é perceber como, tantos anos depois, ainda me lembro de cada um deles. Por razões bem diferentes.

Freud, já perto dos sessenta anos, reconheceu que não sabia o que o havia marcado mais na escola: as matérias ou quem as ensinava. Mais de um século depois, sua reflexão continua atual. Uma criança não aprende apenas matemática, história ou português. Ela também constrói uma imagem de si a partir das relações que estabelece e do lugar que acredita ocupar no olhar dos adultos que fazem parte de sua vida.

Muitas crianças passam boa parte do dia na escola. Isso não transforma a escola em uma segunda família, mas revela a importância desses adultos que acompanham diariamente suas descobertas, frustrações e mudanças.

Na família, somos também filhos de uma história. Carregamos expectativas, comparações e lugares que nos foram atribuídos antes mesmo de compreendermos quem somos. O professor não está inteiramente fora disso, mas encontra o aluno sem o roteiro completo nas mãos.

Pode ser o primeiro adulto de fora a perceber uma facilidade para escrever, um raciocínio rápido que não aparece na nota, uma tristeza em que ninguém reparou. E oferecer à criança a experiência de ser vista de um modo diferente daquele ao qual já se acostumou.

Penso naquele aluno que interrompe, responde atravessado, desafia os limites e parece fazer de tudo para ser mandado embora. Em alguns casos, por trás desse comportamento, existe uma pergunta que ele próprio não saberia formular: será que alguém consegue enxergar alguma coisa em mim além do problema que eu causo?

Mas penso também no quietinho, que entrega as atividades, não incomoda ninguém e acaba passando despercebido. Nem toda inquietação indica sofrimento, assim como o silêncio não significa que esteja tudo bem. É preciso conhecer antes de concluir.

Vivemos uma época em que muitas crianças chegam à escola acompanhadas de laudos e diagnósticos. Eles são importantes para compreender dificuldades, orientar adaptações e garantir direitos.

O problema começa quando deixam de ser ferramentas e passam a funcionar como identidades. O aluno vira “o TDAH”, “a autista”, “o problema da turma”. Um diagnóstico pode explicar parte de uma dificuldade, mas não conta toda a história de alguém.

A escola é lugar de aprender. O professor não precisa ser terapeuta nem substituir os pais. Sua tarefa principal continua sendo ensinar. Mas ensinar nunca foi apenas transmitir informações. P

ara a psicanálise, um professor pode ocupar um lugar que ultrapassa sua função pedagógica, tornando-se referência de autoridade, reconhecimento, confiança e limite. Não porque substitua a família, mas porque a constituição de uma criança também acontece nas relações que estabelece fora dela.

Existe algo nessa profissão que não cabe em nenhum planejamento pedagógico. Uma conversa, uma aposta, uma exigência feita com confiança podem transformar a maneira como um aluno passa a se enxergar. Não se trata de elogiar tudo ou facilitar o caminho. Há professores inesquecíveis justamente porque exigiram mais, porque perceberam uma capacidade onde o próprio aluno só enxergava dificuldade.

Esse olhar também se constrói entre os educadores. Quando uma turma passa para o ano seguinte, o que os professores contam sobre seus alunos? Apenas quem dá trabalho, quem não acompanha, quem precisa de vigilância? Ou também aquilo que desperta a curiosidade de cada um, os progressos discretos, as estratégias que funcionaram? Um aluno apresentado como “difícil” pode encontrar uma porta já meio fechada antes mesmo da primeira aula. Nenhuma criança deveria chegar ao próximo professor com sua história encerrada.

Os professores inesquecíveis nem sempre foram os mais simpáticos, os mais pacientes ou os que davam as melhores notas. Alguns souberam esperar, outros insistiram numa segunda oportunidade quando o próprio aluno já havia desistido. E muitos seguiram suas vidas sem conhecer o alcance daquele encontro.

Uma criança ou um adolescente não é um projeto acabado. Há quem passe boa parte da infância sem encontrar um adulto que reconheça suas possibilidades. Um professor atento pode ser o único, naquele momento, a oferecer esse olhar.

É aí que encontro uma das dimensões mais bonitas dessa profissão. O professor não sabe o que será de cada aluno, não escolhe seu destino e nem sempre acompanhará suas conquistas. Mas pode participar de algo extraordinário: o momento em que uma criança começa a acreditar em si porque alguém acreditou nela primeiro.

Neste Dia dos Professores, meus parabéns àqueles que compreendem a grandeza dessa escolha. Aos que ensinam com conhecimento, mas também com presença; que sabem exigir sem humilhar, corrigir sem diminuir e reconhecer que existe uma pessoa para além de cada nota, comportamento ou dificuldade.

Enquanto um professor pensa que está apenas dando mais uma aula, uma criança pode estar vivendo um encontro que levará para o resto da vida. Feliz Dia dos Professores, especialmente àqueles que, muito depois de nos ensinarem, continuam fazendo parte de quem somos.

The full article is being collected. Available text is shown for now.

Back
Share this story

Get the daily newsletter →

Ask globalread.info

AI news & website helper
What would you like to explore?

I can find stories, explain headlines, or help you use globalread.info.

AI can make mistakes. Check the linked sources. Questions are sent to OpenAI.